Anarquismo, Piotr Kropotkin

“ANARQUISMO (do grego e , contrário à autoridade), é o nome dado ao princípio ou teoria de vida e conduta em que a sociedade é concebida sem governo. A harmonia em tal sociedade é obtida, não pela submissão a leis, ou pela obediência a alguma autoridade, mas pela livre concordância estabelecida entre vários grupos, territoriais e profissionais, livremente constituídos em favor da produção e do consumo, e também para a satisfação da infinita variedade de necessidades e aspirações de um ser civilizado. Em uma sociedade desenvolvida nessas linhas, as associações voluntárias que estarão presentes em todos os campos da atividade humana se estenderão de tal forma que substituirão o estado em todas suas funções.
Elas constituirão uma rede composta por uma variedade infinita de grupos e federações de todos os tamanhos e graus, locais, regionais, nacionais e internacionais temporárias ou mais ou menos permanentes — para todos os possíveis propósitos: produção, consumo e troca, comunicações, arranjos sanitários, educação, proteção mútua, defesa do território, e assim por diante; e, por outro lado, para a satisfação de um número crescente de necessidades científicas, artísticas, literárias e sociais.
Além disso, tal sociedade não representaria nada imutável. Pelo contrário — como é visto em larga escala na vida orgânica — a harmonia resultaria do homem seguindo a sua própria razão (pelo argumento) e de constantes ajustes e reajustes para o equilíbrio entre as múltiplas forças e influências, e este ajuste seria mais fácil de ser obtido assim do que com as forças que desfrutam da proteção especial do estado.
Se, pela força da razão, a sociedade fosse organizada nestes princípios, o homem não teria o livre exercício dos seus poderes no trabalho produtivo limitado por um monopólio capitalista, mantido pelo estado; nem seria limitado no exercício de sua vontade por medo de castigo, ou pela obediência a indivíduos ou entidades metafísicas, que conduzem à supressão da iniciativa e ao servilismo da mente. Ele seria guiado em suas ações pela sua própria compreensão, necessariamente marcada pela ação livre e pela interação de seu próprio ego com as concepções éticas de seu ambiente. O homem estaria habilitado a obter o pleno desenvolvimento de todas suas faculdades, intelectuais, artísticas e morais, sem ser impedido pelo excesso de trabalho imposto pelos monopolistas, ou pelo servilismo e inércia mental de grande número de pessoas. Assim, ele poderia alcançar sua plena individualidade que não é possível sob o atual sistema de individualismo ou sob qualquer sistema de socialismo estatal, o dito volkstaat (estado popular).
Além disso, os escritores anarquistas não consideram sua concepção uma utopia, construída com base em um método pré determinado, após alguns desideratos terem sido estabelecidos como postulados. É derivada, argumentam, de uma análise de tendências que já estão atuando, que nada tem a ver com as vantagens temporárias que o socialismo estatal obtém dos reformadores. O progresso da técnica moderna que simplifica maravilhosamente a produção de todas as necessidades da vida; o espírito crescente de independência, e a rápida expansão da livre iniciativa e da franca compreensão de todos os ramos de atividades — incluindo aqueles que antigamente eram considerados como atribuições privativas da igreja e do estado — continuamente reforçam a tendência pelo não-governo.
No que se refere às suas concepções econômicas, os anarquistas acreditam que o sistema de propriedade privada da terra e a produção capitalista que tem como objetivo o lucro, representam um monopólio que vai ao mesmo tempo contra os princípios de justiça e contra os de utilidade. Os anarquistas consideram o sistema salarial e a produção capitalista um obstáculo para o progresso. Porém, assinalam também que o Estado sempre foi, e continua sendo, o principal instrumento para que poucos proprietários monopolizem a terra e para que os capitalistas se apropriem de um volume totalmente desproporcionado do excedente acumulado da produção.
Os anarquistas, portanto, enquanto combatem o atual monopólio da terra e o capitalismo, combatem com a mesma energia o Estado, que é o apoio principal do sistema. Não combatem esta ou aquela forma de Estado, mas o Estado em si, tanto o monarquista quanto o republicano. Tendo sido sempre a organização do Estado (na história antiga como na moderna), o instrumento para assentar os monopólios das minorias dominantes, não pode ser utilizada para a destruição destes monopólios. Os anarquistas consideram, portanto, que entregar ao Estado todas as fontes principais da vida econômica (a terra, as minas, as ferrovias, os bancos, os seguros, etc.) assim como o controle de todos os ramos da indústria, além de todas as funções que acumula já em suas mãos (educação, religiões apoiadas pelo Estado, defesa do território, etc.), significaria criar um novo instrumento de domínio. O capitalismo de Estado de tipo socialista só aumentaria os poderes da burocracia e do capitalismo. Ao contrário, o verdadeiro progresso está na descentralização, tanto territorial como funcional, no desenvolvimento do espírito local e da iniciativa pessoal e na federação livre do simples ao complexo, ao invés da hierarquia atual que vai do centro à periferia.
Os anarquistas, reconhecem que, como toda evolução natural, a lenta evolução da sociedade é seguida às vezes pela evolução acelerada chamada revolução, e acreditam que a era das revoluções ainda não se concluiu. Nos períodos de lenta evolução, todavia, dever-se-ia reduzir os poderes do Estado formando organizações
em todos os vilarejos e cidades ou comunidades de grupos locais de produtores e consumidores, assim como federações regionais ou internacionais destes grupos.
Os anarquistas se opõem, segundo os princípios expostos, a participar da organização estatal atual e a apoiá-la e infundir-lhe sangue novo. Não pretendem constituir, e convidam os trabalhadores a não fazê-lo, partidos políticos que concorram a eleições para parlamentos. Portanto, desde a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (1864-1866), os anarquistas procuraram propagar suas idéias diretamente nas organizações operárias, e induzi-las a uma luta direta contra o capital, sem depositar fé alguma na legislação parlamentar”

Piotr Kropotkin

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Uma breve introdução a teoria da FAM

Por demasiado tempo o anarquismo esteve inativo e quase que esquecido em grande parte do mundo, tal fato ocorreu por diversos fatores, sendo um dos grandes culpados o individualismo e a sua descendência pequeno-burguesa, defensora do ego e da imaturidade política, favorecendo apenas um ser e não a liberdade coletiva e social, como foi proposto pelos primeiros anarquistas. O termo anarquismo social começara a ser utilizado para se diferenciar do individual, o que é um grande absurdo, afinal desde os primórdios das ideias elaboradas em teoria anarquista defendiam uma sociedade igualitária, e coletivamente livre.

O individualismo é a oposição da organização e da felicidade social, comprovando o egoísmo e a influência liberalista e plenamente imatura, defensora da libertinagem e da ausência do comunismo.

O aparecimento das ações inconsequentes da irracionalidade pequena-burguesa e do pseudo-anarquismo, os demais movimentos sociais e o povo passaram a ver a teoria anarquista, que até então tivera sido tão bem aceita e realmente efetivas, serem taxadas de utopia, e gerando preconceito em todo o mundo por culpa da ação de poucos que utilizaram o nome anarquista para benefício pessoal, para gozar a própria vida e não para o objetivo central do anarquismo que é a destruição do capitalismo e a liberdade social e o amor. Não admitimos mais que a ação deturpada de tão poucos prejudiquem o nosso programa; que é sério e compromissado, envolvendo um amplo e dedicado trabalho de militância e organização extrema.

Nós da federação anarquista mineira, buscamos a restauração dos princípios do anarquismo social, não permitindo que o termo anarquista seja utilizado como sinônimo de utopia no pior de seus sentidos, e através da organização buscaremos a concretização do comunismo libertário.

Percebemos que somente através da união e da organização federativa e verdadeiramente responsável e disciplinada para com o povo é que poderemos obter a tão sonhada e cobiçada revolução social, apenas com um programa efetivo ( Não constante, pois os fatos da história modificam-se diariamente, o que não nos permite ficarmos presos ao passado e cometermos erros ), e com o compromisso de seus militantes, tal como a unificação de objetivos, táticas e meios poderemos efetuar a destruição do capitalismo e de todos os seus meios de repressão.

Não desejamos que o anarquismo seja novamente confundido com esta cólera pequeno-burguesa, estamos novamente nos organizando e rumando a revolução social, benéfica a todo o povo. Somente através da organização, da luta de classes e a inserção no movimento social é que poderemos finalmente chegar ao nosso objetivo.

Consideramos assim que, como fora citado pelo revolucionários latino-americanos: ” Os revolucionários latino-americanos sustentam que as organizações que não tem um programa, e que rejeita, qualquer disciplina entre os militantes, que recusam a ‘se definir’, a se encaixar’, […] são descendentes diretas do liberalismo burguês, que reage apenas aos fortes estímulos, juntando-se à luta apenas nos seus momentos de intensidade, e negando-se a trabalhar continuamente, especialmente nos momentos de relativa calma entra as lutas.” [En La Calle]

Quanto ao programa, podemos citar novamente nossos camaradas revolucionários latino-americanos: ” O programa deve vir de uma análise rigorosa da sociedade e da correlação de orças que é parte dela. Deve ter como base a experiência de luta dos oprimidos e suas aspirações, e a partir destes elementos, deve estabelecer os objetivos e as tarefas a serem realizadas pela organização revolucionária com o objetivo de obter êxito não apenas em seu objetivo final, mas também nos intermediários. ”

Apenas com a genuína organização, de forma horizontal e responsável de todo o partido, é que poderemos ver o amor, surgindo em toda a sociedade, e o sorriso de todos oprimidos florescendo em seus rostos, enquanto admiram a revolução!

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